"Um bom edifício não é aquele que
fere a paisagem, mas aquele que faz
a paisagem mais bonita"

Frank Lloyd Wright

Capa Yearbook
arquitectura verde, das caricaturas
de marcianos a um futuro mais sustentável

// Tiago Mota Saraiva //ateliermob.com

No contexto deste anuário é particularmente notório que pouco do que se fez de mais relevante no ano em análise tenha uma componente urbana, ou de carácter territorial. Os agentes públicos com poder sobre a gestão do território, lutam ferozmente para que o equilíbrio de forças não se altere e para que os técnicos envolvidos nos projectos de maior impacto se mantenham os mesmos, desde há mais de trinta anos. Esta resistência nada tem a ver com uma questão técnica ou de experiência das equipas, mas sim com formas padronizadas de fazer e com a prevalência do interesse privado sobre o interesse público, ou seja, do lucro de alguns sobre o interesse colectivo. Desta forma os projectos de maior relevância financeira, escala ou com maior impacto no território ficam geralmente muito aquém do que se deveria esperar no campo da criatividade, inovação, interesse público e, até mesmo, sustentabilidade.



isto não é um anuário
// Pedro Machado Costa //quando-as-catedrais-eram-brancas.blogspot.com

São obras, estas, em grande maioria feitas da mesma matéria construída que abunda por todo o território. De uma arquitectura constrangida, presa às suas próprias limitações: das materiais e das técnicas, das políticas e das sociais. Das restrições legais e orçamentais, invariavelmente associadas à encomenda pouco sugestiva ou à necessidade programática banal.

Ao contrário dos países do centro e do norte da Europa, onde a arquitectura – aquela arquitectura a que nos habituámos a chamar de média, que desenha a maioria das cidades, na qual não reparamos, mas cuja presença massiva qualifica de facto o quotidiano – é tida como um acto normal, em Portugal a existência da mesma é escassa.



oh não! é outro “texto crítico”
sobre “arquitectura portuguesa”

// António Machado //odesproposito.blogspot.com

Para alguns, mais deslumbrados que “optimistas”, a “arquitectura portuguesa” é “uma história (“cor-de-rosa”) de sucesso”! A “arquitectura portuguesa” e os arquitectos portugueses são um “produto” e uma “marca” com uma “identidade”, que se pode levar a passear (sem vergonhas nem outros embaraços) aos salões (reais ou virtuais) do(s) “estrangeiro(s)”… A “arquitectura portuguesa” é “capa de revista” (lá fora…), a “arquitectura portuguesa” é premiada (lá fora…), a “arquitectura portuguesa” é divulgada (lá fora…), a “arquitectura portuguesa”… é o Siza (o que felizmente – e dada a evidência… - nos dispensa a todos de outras e potencialmente inoportunas considerações…). Para os que insistem em ver o copo “meio-cheio” (…) a “arquitectura portuguesa” é o “somatório” dos nomes dos autores e das obras de “excepção” (as tais que não envergonham ninguém…) fotografadas e publicadas (e raramente criticadas…) conforme os (ditosos) costumes da pátria.



same, same, but different
// Pedro Gadanho //shrapnelcontemporary.wordpress.com

Não sendo arquitecta, a sua reacção a um certo volume-pesado sobre a arquitectura contemporânea portuguesa foi liminar e genial: “Parece um catálogo de mognos.” Voltei a olhar para as imagens que se sucediam ao longo de mais de setecentas páginas e percebi perfeitamente o que queria dizer. Era por demais óbvio, aliás. Por entre as entranhas daquelas obras, produzidas pelos arquitectos portugueses ao longo de uma década, pairava uma santíssima e mesmíssima trindade de materiais – o inefável reboco branco, a pedra “natural” entre o marmóreo e o calcário, e a madeira de tons escuros entre o mogno e o carvalho.



pragmatopia…
// Carlos Sant’Ana //www.br351.com

Arquitectura torna-se assim um paradoxo: temos que ser simultaneamente contemporâneos e pós-contemporâneos, temos que ser criativos e simultaneamente práticos, acabando por nos tornar especialistas em coordenar especialistas, colocando-nos numa posição no mínimo estranha de sermos não-especialistas, ou especialistas em absolutamente nada.

Esta ambiguidade —que aparentemente fragiliza as bases da nossa profissão— está a colocar-nos numa situação cada vez mais precária, mas que se transforma em terreno fértil para inovação e criatividade, frequentemente apropriado pelos jovens arquitectos para explorar novos campos de acção, onde aproximações estratégicas à investigação e ao projecto se tornam algo normal e corrente na prática arquitectónica.



a perpétua invenção da individualidade
// Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste //www.btbwarch.com

Ao examinar a arquitectura que encarna a dimensão mais presente do actual momento, o acto de utilizar a palavra “geração” leva-nos tacitamente a descartar torná-la sinónimo de qualquer noção de “homogeneidade”. A palavra remete-nos para um estado mental comum que integra todas as aproximações heterogéneas através das quais se reconhece a posição do individuo e do colectivo dentro destes fluxos de cultura global que apontam a novos modos de compreensão e interpretação das dimensões locais.

No território da arquitectura, esta descrição poderia encaixar na categoria de “regionalismo”, se este facto fosse analisado a partir de parâmetros do século XX. Não obstante, hoje, no inicio do século XXI, a hibridação das dimensões do local e do global supõem uma superação dos parâmetros conceptuais implicados nesta categoria. A possibilidade de importar e intercambiar conceitos e materiais procedentes de diferentes realidades simultâneas representam um factor decisivo para a geração mais jovem de arquitectos de qualquer lugar da Europa, com acesso a uma informação multifacetada sobre a realidade que acontece num cenário global, sobre a realidade do seu cenário local e as realidades de outros cenários locais.